
Piotr Iyitch Tchaikovsky nasceu em 7 de maio de 1840 - no calendário juliano, adotado na Rússia até a Revolução de Outubro, 25 de abril - na cidade de Votkinsk, às margens do Volga. Votkinsk era, na época, um dos mais prósperos centros siderúrgicos russos. Seu pai, Ilya, era o competente diretor da usina mineradora local; sua mãe, Alexandra, de origem francesa, era uma doce e dedicada dona de casa. Era uma família unida e feliz: por muito tempo Piotr haveria de se lembrar com carinho de seus pais e irmãos.
Desde cedo Piotr dava sinais de interesse por música. Quando tinha cinco anos, sua atividade predileta era passar horas ao piano com sua mãe, descobrindo sons. Porém, apenas quando a família se mudou para Moscou, alguns anos depois, é que tomou suas primeiras aulas formais, com o mestre Filipov.
Em 1850, a família escolheu a profissão do pequeno Piotr: advogado. Para tanto, deveria mudar-se para São Petersburgo, onde freqüentaria as aulas preparatórias para a escola de Direito da então capital russa. Piotr era um excelente estudante, metódico e muito aplicado. Antes mesmo de sua formatura, obteve um bom posto no Ministério da Justiça, que abandonou apenas em 1863, para dedicar-se à música.
Porém, é importante retornarmos a 1854, quando sua mãe haveria de falecer, vítima de cólera. Os biógrafos consideram a morte da mãe como o fato mais marcante da vida de Tchaikovsky. Ele mantinha verdadeira idolatria em relação a Alexandra, que foi, certamente, a pessoa que mais amou em sua vida. A morte da mãe acabou por criar um grande vazio emotivo que depois iria culminar na melancolia quase beirando a morbidez dos últimos anos do compositor.
Como que para compensar essa perda tão grande, por volta dos 18 anos Tchaikovsky mudaria radicalmente seu comportamento. Antes tímido, inseguro, recluso, agora um boêmio consumado. Por um bom período, Piotr entregou-se por inteiro à vida noturna, aos prazeres da bebida e do sexo. E é nessas noitadas que começa a despertar fortemente uma de suas características que mais o incomodariam intimamente: sua homossexualidade.
Tchaikovsky se sentia realmente incomodado com suas tendências sexuais, a ponto de tentar a todo custo reprimi-la. Mas não obteve sucesso. Embora não haja relatos de que tenha mantido um romance homossexual, em cartas - principalmente as destinadas ao irmão Anatoli - podemos saber que muitas vezes o compositor se deixava dominar por seus impulsos, em fugazes experiências com outros homens.
De qualquer maneira, a sexualidade reprimida geraria um sem número de conflitos interiores na já frágil personalidade de Tchaikovsky. Mais tarde, alguns atos desesperados seriam frutos de tais conflitos. Mas voltemos ao ano de 1863, em que Tchaikovsky decide largar a carreira jurídica para se dedicar exclusivamente à música. Matricula-se no Conservatório de São Petersburgo e estuda com seu afinco habitual.
Três anos depois, era chamado por Nikolai Rubinstein, irmão de Anton Rubinstein e diretor do recém-criado Conservatório de Moscou, para dar aulas de teoria musical e composição. Muda, não sem certo alívio, para a cidade, onde iria construir sua carreira musical. São dessa época a Primeira Sinfonia, Sonhos de Inverno, e sua aproximação com o chamado Grupo dos Cinco - Mussorgsky, César Cui, Rimsky-Korsakov, Balakirev e Borodin.
Por algum tempo, Tchaikovsky se viu atraído pelas idéias nacionalistas do "Bando Invencível", trabalhando sob a supervisão direta de Balakirev. Mas logo se decepcionou tanto com as propostas do grupo quanto com seus integrantes. E por toda vida, carregaria enorme desprezo pela música de Mussorgsky.
Em 1867, acaba se apaixonando pela célebre cantora francesa Desirée Artôt. Os dois se aproximam e incluem o casamento entre seus projetos. Mas o vacilante Tchaikovsky, temeroso tanto do casamento quanto do vexame de ser apenas o marido desconhecido de uma artista famosa, demorou muito a se decidir: Desirée, nesse meio-tempo, apaixonou-se por outro e partiu.
A decepção amorosa o inspirou em sua primeira grande obra-prima: a abertura fantasia Romeu e Julieta, concluída em 1869. O tripé amor-morte-destino da obra de Shakespeare se tornaria elemento recorrente de sua própria obra.
Alguns anos depois, em 1876, Tchaikovsky tomaria a mais desastrada - e trágica - decisão de sua vida: o casamento. Não por uma paixão como a vivida por Desirée Artôt, mas sim, nas palavras do próprio compositor, "para calar a boca de toda aquela súcia", escolhendo "qualquer uma" como esposa.
Pela correspondência aos seus irmãos que chegou até nós - uma grande parte foi destruída posteriormente pela família - podemos deduzir os verdadeiros motivos de tal decisão, como na carta enviada ao irmão Modest em setembro de 1876:
Como resultado de longa elucubração, de hoje em diante me prepararei para realizar um casamento, com quem quer que esteja disponível. Creio que nossas inclinações sejam o maior e mais insuperável obstáculo à nossa felicidade, e que devemos lutar com todas as forças contra a nossa natureza. Farei o possível para me casar ainda este ano, e, se não tiver coragem de fazê-lo, me libertarei, de qualquer forma, de meus hábitos, e o farei de forma a não ser mais visto na companhia de... Preocupo-me somente em erradicar de mim esta perniciosa paixão.
Resta um mistério: quem seria a "perniciosa paixão" estrategicamente coberta por Tchaikovsky pelas reticências? Ou não seria ninguém, apenas uma "inclinação natural", como insinua em outra carta ao irmão?
Pois em 1877, decidido a casar-se, Tchaikovsky recebeu, de uma aluna do Conservatório de Moscou, uma ardente carta de amor. A estudante chamava-se Antonina Miliukova, tinha 28 anos e era uma mulher bonita e agradável. Tchaikovsky encontrou-se com ela no dia 1o de junho, dois dias depois a pediu em casamento e no dia 18 já estavam casados.
Porém, Tchaikovsky não conseguiu suportar por muito tempo a situação. A mistura de horror à mulher com o intenso sentimento de culpa pela grande farsa que havia montado o levou aos limites da loucura. Em uma semana, pediu "férias" para a esposa e ficou um mês refugiado na casa da irmã Alexandra. De volta ao lar, tentou o suicídio, banhando-se nas águas geladas do rio Moscou esperando contrair pneumonia.
Em pouco tempo, fugiu para a casa do irmão Anatoli, em São Petersburgo, onde teve um colapso nervoso, ficando desacordado por dois dias. O divórcio deveria ocorrer rapidamente. Anatoli e o amigo Nikolai Rubinstein comunicaram a decisão a Antonina, que os recebeu cordialmente e acatou tudo com tranqüilidade.
Tranqüilidade apenas aparente, porém. Antonina logo demonstraria graves perturbações mentais. Volta e meia ela aparecia na casa de Tchaikovsky e constantemente o perseguia. Começou a oscilar entre profunda depressão e euforia histérica, temperada com uma ninfomania cujo resultado foi uma filha cujo pai não se conhece. O destino de Antonina parecia claro: o manicômio, onde foi internada em 1896.
Quase simultaneamente ao "casamento", em 1876, Tchaikovsky recebeu a primeira das milhares de cartas que lhe seriam enviadas por Nadedja von Meck nos próximos 14 anos. Nadedja era uma rica viúva de 45 anos, reclusa e desiludida em relação à vida, que descobriu uma viva atração pela música de Tchaikovsky. A relação entre os dois começou quando ela pediu-lhe a transcrição de algumas de suas obras orquestrais para violino e piano, para que pudessem ser executadas pelos seus músicos particulares (mais adiante, Claude Debussy seria um deles).
Em pouco tempo, os dois estariam trocando confidências íntimas e se descobririam apaixonados um pelo outro, platonicamente. Impuseram a si mesmos a condição de que nunca se veriam pessoalmente. Em algumas ocasiões, Nadedja esboçou uma tentativa de romper o trato, mas Tchaikovsky, receoso como sempre, impedia os encontros pessoais. O mais perto que chegaram um do outro: ela na carruagem, ele na rua, em dois ou três passeios planejados com boa antecedência.
Nadedja pagava uma pensão anual de 6000 rublos para o compositor, em troca das cartas que eram enviadas quase diariamente e dos manuscritos de novas obras, que eram exaustivamente discutidas e analisadas pelos dois. A Quarta Sinfonia, entre outras peças, foi dedicada "à minha melhor amiga": Nadedja. Com seu dinheiro, seu apoio e carinho, Tchaikovsky encontrou na rica viúva alguém que pudesse desempenhar o papel de mãe e protetora.
Enquanto isso, a fama de Tchaikovsky na Rússia e na Europa aumentava consideravalmente. Em algumas viagens que fez durante a década de 1880, o compositor pôde perceber o quanto era apreciado. Encontrou-se com Liszt, Brahms, Grieg e Dvorák, visitou Bayreuth, fez turnê triunfal pelos Estados Unidos, estreava com grande sucesso balés e óperas. Em várias destas estréias, contava com o decisivo apoio do Czar Alexandre III, outro fervoroso admirador.
Em 1890, recebeu uma inesperada carta de Nadedja von Meck. Nela, de maneira seca, Nadedja diz que perdeu toda a sua fortuna, que não poderia mais enviar a pensão ao compositor e que iria interromper defintivamente o contato entre os dois. Tchaikovsky ficou extremamente chocado e tentou inúmeras vezes reatar a relação, enviando bilhetes que nunca foram respondidos. Depois, abalou-se ainda mais ao descobrir que a fortuna da família Von Meck em nada tinha diminuído: ela mentira.
Até hoje, não se sabe o motivo de tão repentino rompimento. Ao que parece, Nadedja teria sido informada de certas "amizades particulares" que o compositor mantinha, o que teria a deixado escandalizada. Mas como, em 14 anos de constante correspondência, ela pôde ignorar um comportamento que era de conhecimento público? Permanece o mistério.
No ano seguinte viria a falecer a querida irmã Alexandra. Aos poucos, a vitalidade e o ânimo de Tchaikovsky começavam a ruir. Poucos dias depois da estréia da Sexta Sinfonia, Patética, ocorrida em 28 de outubro de 1893, o compositor fica gravemente doente. É a cólera, que se alastrava em São Petersburgo. Não resiste. No dia 6 de novembro de 1893, morre Piotr Ilyitch Tchaikovsky. Sua última palavra: maldita.
Segundo consta, Tchaikovsky tomou um copo de água não fervida, mesmo tendo conhecimento da epidemia, em 2 de novembro. Suicídio? A lenda diz que sim, mas nada podemos provar. Este é mais um dos mistérios que a morte de Piotr manterá para sempre insolúveis.
Fonte: Site Allegro