
Carl August Nielsen nasceu em 9 de junho de 1865, em Sortelung, pequeno vilarejo da ilha de Funen, uma das 406 ilhas que compõem o território da Dinamarca. De origem pobre, um dos doze filhos do pintor de paredes Niels, nada indicaria que o pequeno Carl se tornaria uma das figuras mais importantes da história da arte de seu país e seu maior compositor. A Dinamarca, país pequeno e isolado no norte da Europa, não viu muitos de seus filhos obter fama e prestígio internacionais. A única exceção era, até aquela data, o escritor Hans Christian Andersen - curiosamente, também natural de Funen.
Niels vivia uma vida pacata como pintor e decorador até conseguir um segundo emprego como violinista. Tal ocupação paralela mudou o destino de Carl, que começou a aprender alguns rudimentos de música com seu pai. O interesse do menino era tanto que logo lhe contrataram um professor de violino chamado Petersen. Quando tinha oito anos, tocou em um baile sua primeira "composição", uma polca. Niels reprovou a obra: "ninguém poderia dançá-la".
Carl iria começar a trabalhar como auxiliar de padeiro quando, estimulado pelo pai, obteve um posto na banda militar de Odense, capital da ilha de Funen. Em Odense, Carl logo tornou-se o melhor músico da banda, atraindo a atenção de muita gente importante. Tanto que, em 1883, quando completava 18 anos, um grupo reuniu fundos para que Carl viajasse para Copenhagen, capital da Dinamarca, localizada na ilha de Sjaelland, extremo leste do país. Lá, conheceu o mais importante compositor dinamarquês da época, Niels Gade, que o encaminhou para o Conservatório de Copenhagen. Em janeiro de 1884, Carl Nielsen deixava definitivamente Funen - uma etapa de sua vida se cumpria.
Nielsen conseguiu estudar por três anos no Conservatório, com todas as despesas pagas pelos patronos de Odense. Em 1888, estreou com grande sucesso sua primeira obra de peso, a Pequena suíte para cordas, que batizou de Opus 1. A imprensa fez inúmeros elogios: foi a primeira crítica positiva de sua carreira. No ano seguinte, obteve o posto de violinista da Orquestra do Teatro Real de Copenhagen e uma bolsa de estudos para viajar a Alemanha. Nielsen ficou em Berlim até 1891. Em uma das inúmeras viagens que fez pela Europa no período, foi a Paris, onde conheceu a escultora Anne Marie Brodersen. Poucos meses depois se casaria com a artista, que seria sua companheira até o final da vida.
A carreira de Nielsen como compositor evoluía rapidamente. Em 1903 assinou seu primeiro contrato de publicação de suas obras e dois anos depois renunciava ao posto no Teatro Real para se dedicar excluisivamente à composição. Nesse período, compôs suas duas primeiras sinfonias, dois quartetos de cordas, a cantata Hymnus amorise a ópera Saul e Davi. Em 1906 estreou a comédia Maskarade, que fez imenso sucesso e que tornou-se a ópera nacional dinamarquesa por excelência. O êxito da apresentação, regida pelo próprio compositor, fez com que Nielsen recebesse o convite para ser o diretor musical do Teatro Real, posto que ocupou por vários anos.
Foi como regente da Orquestra Real Dinamarquesa que Nielsen divulgou sua terceira sinfonia, dita Sinfonia Espansiva, de 1911, que chegou a apresentar em Amsterdã e que ganhou carreira internacional. A fama de Nielsen como compositor e regente só crescia. Em 1915, deixou a Orquestra Real e tornou-se diretor da Sociedade de Música de Copenhagen, cargo anteriormente ocupado por Niels Gade. Em 1916 tornou-se conselheiro titular do Real Conservatório de Música, onde dava aulas. A reputação de Nielsen como "músico nacional" levou o governo de seu país a encomendar inúmeras obras. Uma das mais famosas é a cantata Primavera em Funen, escrita para os 1000 cantores da Sociedade Coral Dinamarquesa e que celebra a ilha onde o compositor nasceu.
Ao mesmo tempo, Nielsen tornou-se figura conhecida e requisitada no exterior. Freqüentemente trabalhava como maestro convidado da Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, na Suécia, e da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã, na Holanda. Em 1926, o Conservatório de Paris promoveu um Concerto Nielsen, que o compositor descreveu como uma das maiores experiências de sua vida. No programa, o Concerto para violino, a Sinfonia Espansiva, a Suíte Alladin e a estréia mundial doConcerto para flauta.
A essa altura, Carl Nielsen já era uma celebridade dentro e fora da Dinamarca. Participava de concursos e congressos de música internacionais - em um festival em 1919, conheceu Jean Sibelius; em um concerto em 1925, encontrou-se com Igor Stravinsky; no Festival de Música de Frankfurt, em 1927, conheceu Béla Bartók e Arnold Schoenberg, além de ter sua Quinta Sinfonia regida por Wilhelm Furtwängler. Quando completou 60 anos, em 1925, foi festejado como herói nacional.
Também de herói foi seu funeral. Carl Nielsen faleceu na noite de 3 de outubro de 1931, de falência cardíaca. Em sua cerimônia fúnebre, na Catedral de Copenhagen, foi tocado o último movimento de seuQuinteto para sopros, um conjunto de variações sobre o hino luterano Meu Jesus, faz meu coração amar. Não poderia haver homenagem mais apropriada.
Fonte: Site Allegro