
Tendo
vivido uma vida dividida entre triunfos e derrocadas, otimismo e
desesperança, é somente o esperado que a música de Gustav Mahler
retrate tal conflito e desperte reações variadas nos ouvintes, da
adoração feroz à profunda antipatia. Mahler nasceu em 7 de julho de
1860, em Kalischt, Boémia, filho dos proprietários de uma destilaria
de conhaque. Gustav era o segundo de doze crianças nascidas de
Bernhard e Marie Mahler, seis dos quais morreram muito novos e um
cometeu o suicídio. Gustav realmente demonstrou precocidade musical e
Bernhard, aberto ao talento do seu filho, começou a pagar por lições
de piano. Gustav deu seu primeiro recital público em Iglau na idade
de dez anos, antes de encaminhar-se ao Gymnasium
de Praga e ao Conservatório de Viena. Seu período no Conservatório
foi em grande parte um sucesso, obtendo prêmios por performances e por composições para piano, mas tendo primeiro que
lidar com as opiniões anti-semíticas do círculo musical de Viena.
Mahler seguiu regendo, enquanto obtinha uma escassa renda como
compositor, trabalhando nos salões menores da Boêmia e da Hungria
antes de estabelecer-se como um prodígio ao podium, com colocações
em Praga (1885-6), Leipzig (1886-8), Budapest (1888-91), Hamburgo
(1891-7), e, finalmente, Viena (1897-1901). Mahler era popular em seu
papel de regente, fazendo mudanças revolucionárias no repertório
orquestral e na maneira como a ópera, particularmente de Wagner, é
apresentada.
A
vida pessoal de Mahler, mesmo com a amplitude de seus sucessos, foi
notavelmente atribulada. Seus ásperos métodos de ensaio e de
tratamento com os músicos foram extensamente criticados, embora
muitos fossem fascinados por sua liderança e considerassem seus
desempenhos estando em um nível inteiramente diferente. Sua origem
judaica tornou-o ainda mais que um alvo para os jornais racistas de
Viena, impondo-lhe uma pressão que mais tarde acabou cobrando seu preço.
Converteu-se ao catolicismo romano ainda em Viena, por razões políticas,
negligenciando sua fé verdadeira. A união de dez anos entre Mahler e
Alma Maria Schindler mal escapou do divórcio, sendo ameaçada pela
diferença de 19 anos de idade, por seus problemas de identidade, e
pela morte de sua filha mais velha, com cinco anos, Maria Anna. Uma
discussão psicanalítica entre Gustav Mahler e Freud sobre sua união
é muito conhecida.
A
produção de Mahler é quase inteiramente de sinfonias e lieder. Nunca escreveu uma ópera completa, apesar de fazer uma
contribuição tão grande à concepção e à maneira de apresentação
operística. De suas nove sinfonias completas, a segunda (Ressureição,
estreada em 1895), a terceira (Pan, 1902), e a oitava (Sinfonia dos
Mil, de 1910) são consideradas as mais populares entre os ouvintes.
Sua contribuição no campo dos lieder
é extensa, incluindo os ciclos Lieder
eines fahrenden Gesellen (Canções de um Viajante), Lied
von der Erde (Canção
da Terra), Kindertotenlieder
(Canções das Crianças Mortas), e Des
Knaben Wunderhorn (A Corneta Mágica da Juventude). Para aqueles que
consideram as sinfonias menos atraentes, as canções são de fácil
abordagem e belas no tom.
O
estilo de Mahler é tardo-Romântico, ao longo das linhas de Anton
Bruckner, de Richard Wagner, e de Alexander von Zemlinsky. Embora
tendendo a usar as formas clássicas da sonata e do scherzo,
seus temas tipificam o ansioso espírito fin-de-siécle
da Europa de sua época. Enquanto se aproximava do mundo da música
nova – o atonalismo - expandiu a orquestra romântica até um ponto
de ruptura. Sua oitava sinfonia, dividida em duas seções - um antigo
hino da igreja e a cena da transfiguração de Fausto, de Goethe -
requer quase mil executantes, incluindo oito solistas vocais, coros de
adultos e de crianças, sopros quadruplicados, duas harpas, grande seção
de percussão, e órgão. Naturalmente, o compromisso de Mahler com as
novas sonoridades e sua idéia de sinfonia como "um mundo
inteiro" eram impopulares, exceto para um pequeno grupo de
admiradores vienenses. Mas o grupo incluía Arnold Schoenberg, Alban
Berg e Anton Webern, que conduziram o mundo musical alemão alguns
anos mais tarde.
Mahler
morreu de uma infecção do sangue em Viena, em 18 de maio de 1911, na
idade de 50 anos. Sua música foi executada raramente nos anos
imediatamente após sua morte e mais adiante foi relegada pelos
nazistas como "música degenerada”, na Alemanha e na Áustria
durante a II Guerra Mundial. Mesmo hoje, os tempestuosos trabalhos de
Mahler parecem rudes a muitos e são um gosto que se adquire. Mas com
o crescente interesse no legado de Mahler, sua música tem
testemunhado uma revivescência constante durante as últimas cinco décadas.
Fonte: Paul-John Ramos