
Em 1892, Alexandre Levy faleceu
prematuramente aos 28 anos de idade, deixando músicos e amigos
consternados, como bem descreve Carlos Gomes: Alma ardente de artista
genial, desapareceste tão cedo, vestindo assim de profundo luto a Arte
Nacional, mas o teu espírito, com a velocidade do pensamento, foi colocar-se por
entre as plêiades celestes, no Pantheon dos astros de primeira
grandeza. E de lá o raio da tua luz desce até nós, iluminando a
palavra sincera gravado em todos os corações: saudade...".
AS RAÍZES DO NACIONALISMO MUSICAL
Em um cenário
político conturbado - abolição da escravatura e proclamação da
República - em que predominavam discursos nacionalistas, o sentimento
nativista inflamou músicos e artistas, que passaram a compor a partir
de motivos folclóricos e populares, nascendo, assim, uma nova
estética: o nacionalismo musical. Nesta vertente, dois compositores se
destacaram: Alexandre Levy e Alberto Nepomuceno.
E realmente são estes dois homens (...) as primeiras conformações
eruditas do novo estado de consciência coletivo que se formava na
evolução social da nossa música, o nacionalista. (...)E neste sentido,
eles não são apenas profetizadores da nossa brilhante e inquieta
atualidade, mas a ela se incorporam, formando o tronco tradicional da
árvore genealógica da nacionalidade musical brasileira.
(Mario de Andrade. Aspectos da Música Brasileira. São Paulo, Martins,
1965).
Durante os poucos anos de sua vida adulta, Levy compôs obras de cunho
nacionalista, como Suíte Brasileira e Tango Brasileiro, considerada, a
primeira obra com características nacionalistas escrita por um músico
erudito.
(Béhague, Gerard. Popular Musical Currents in the Art Music of the
Early Nationalistic Period in Brazil - 1870-1920, Tulane University.
In. Appleby, David P. The Music Brazil. University of Texas, 1983, p.
85).
Samba, quarta parte da Suíte Brasileira, que procura reproduzir os
ritmos e variações do samba rural, descrito no romance de Júlio
Ribeiro, A Carne (1888), obteve grande sucesso com a redução para
piano feita por seu irmão Luiz Levy. Em 1890, no Jornal do
Comércio, Rodrigues Barbosa comentava:
O autor do Samba, Levy, é um músico de muito talento, estabelecido na
cidade de São Paulo. O tema, ou antes, os temas escolhidos para uma
peça que tem por título o Samba, deviam ser por demais chulos, e toda
a dificuldade estava em tornar digno e aceitável um gênero de música
que, despido das galas da composição, seria intolerável num concerto
como o de ontem.
(Kiefer, Bruno. História da música brasileira, dos primórdios ao
início do século XX. Porto Alegre: Movimento; Brasília: Instituto
Nacional do Livro; Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1976, p.
110).
Pequena Biografia
Antecedentes
Em 1848, ano de terríveis perturbações políticas na Europa, embarca
H.L. Levy para o Brasil, aos 19 anos e consagra-se ao ofício de
vendedor de jóias. Moço ainda percorre durante anos seguidos o
litoral, até que em 1856 chega pela primeira vez em Campinas, onde foi
hospede da família de Manuel José Gomes. Desde então, torna-se grande
amigo de Carlos Gomes, interferindo significativamente em sua
formação. Essa amizade durou até o fim da vida de ambos, que morreram
no mesmo ano de 1896.
Com o fortalecimento da burguesia cafeeira, São Paulo torna-se uma
cidade rica, com boas perspectivas para negócios. Em dezembro de 1859,
H.L. Levy anuncia pelo Correio Paulistano que, juntamente com seu
sócio, em breve abriria uma loja de jóias. Mais ou menos um mês depois
de inaugurar sua loja de jóias, H.L.Levy, anuncia a venda de
composições de Carlos Gomes.
No ano seguinte nasce seu primeiro filho, Luis Henrique Levy, fruto do
casamento com Mlle Chassot.
H.L. Levy era muito requisitado como clarinetista, participando de
diversos concertos, muitos dos quais ele organizava juntamente com
outros músicos franceses na cidade, entre eles o compositor e pianista
Gabriel Giraudon que mais tarde, seria professor dos filhos de Levy.
Em 1863 desfaz-se a sociedade da loja de jóias. No ano seguinte
associa-se com o pianista Emílio Correa do Lago, que também negociava
com partituras. Seguem para a Corte a fim de escolher e comprar uma
variada coleção de músicas. Levy encomenda na Europa novo sortimento e
nota-se a melhoria da qualidade da lista de peças à venda,
incorporando, ao lado das peças de salão, obras dos grandes mestres.
Assim, na época em que nasce seu filho mais famoso, Levy parece
definir sua opção pelo comércio de musical, como se nota pelo logotipo
de sua nova sociedade.
Começa então a primeira casa de música do Brasil a "Casa Levy".
Infância
Em 10 de novembro de
1864 nascia, em São Paulo, Alexandre Levy "um dos gênios mais
promissores da música brasileira" - Mario de Andrade.
Cresceu em um meio onde se relacionavam culturas européias e tradições
nacionais. A presença da Faculdade de Direito, trazia para a cidade
jovens representantes das elites das mais diversas regiões do país. A
cidade, ainda pacata, mas dinamizando sua economia, anunciava a
potência econômica que dominaria a política do país a partir da
República. As atividades de seu pai como comerciante de músicas e
pianos, bem como de clarinetista e animador cultural. H. L. Levy
formava com Giraudon e Emílio do lago uma trindade considerada
indispensável às reuniões musicais.
Em junho de 1869 Levy já vendia "A Sertaneja"peça de Brasílio Itiberê
da Cunha, uma das primeiras manifestações da tendência
nacionalista na música brasileira, que então já começava a se
estruturar. É possível que nessa época, com apenas quatro anos já
escutasse essa obra sendo executada por fregueses e pelo próprio
autor, que então era acadêmico de Direito e tinha diversas obras à
venda na Casa Levy.
Alexandre teve em 1871 algumas lições com seu irmão mais velho e
em seguida principiou estudos de piano com o Professor Louis Maurice,
pianista de origem russa, que fora discípulo de Schulhoff na Europa.
Por essa época o crítico musical Cardoso de Menezes, declarava
fascinar-se com aquela criança de cabelos loiros e anelados "de uma
sisudez e concentração pouco vulgares. Tendo recebido apenas algumas
lições de seu irmão, ao que consta, quando se senta ao
piano para tocar algum pedaço de música com o seu jovem mestre,
converge toda a sua atenção para o que está executando e não
discrepa sequer o valor de uma semifusa do ritmo que deve seguir
na execução".
Aos oito anos, Alexandre apresentou-se em público pela primeira vez na
Estação da Luz ao lado do pai e do irmão.
No ano de 1873, com o fim da guerra do Paraguai há um novo impulso no
progresso da cidade. Nesse ano fundam-se várias sociedades musicais.
H.L. Levy ampliou sua loja, que vai tornar-se cada vez mais "o cérebro
da vida artística da cidade" - Souza Lima.
Depois de Louis Maurice, Alexandre teve aulas com Gabriel Giraudon,
regente pianista, compositor e cantor francês. Como professor era
bastante exigente e parece que alicerçava os seus princípios
pedagógicos na teoria e no solfejo.
Prossegui estudos com esse professor até os 12 anos.
Adolescência
A partir dos 12 anos,
Levy prossegue tocando e escrevendo música como autodidata, apenas
aprendendo elementos do meio musical a que pertencia e de seus
infindáveis estudos voltados para obra dos grandes mestres e para o
desenvolvimento da desenvoltura na técnica instrumental. Estudava com
grande afinco obras de Mendelssohn, Chopin, Beethoven, Mozart, Hayden,
Bach (deste último tocava várias fugas de cor). Aconselhava-se também
com músicos amigos, mas só os que considerava entendedores, pois
detestava elogios. Chegava a esconder seus manuscritos para evitar que
alguém da família tentasse mostrá-las orgulhosamente a alguém de fora.
Aos 15 anos começa a ter suas partituras publicadas na Europa, como
era comum na época. Seu op 1 Impromptu-Caprice já revela seu
temperamento de músico que se alegra em experimentar, manipulando até
o limite os materiais musicais que vai adquirindo em seus estudos.
Impromptu, improvisations, penseé fugutive, fantasia, revêrie,
scherzo, variações, donte, soa palavras que revelam seu pensamento
musical de grande originalidade.
Os op 2 e 3 são fantasias sobre temas de "O Guarani"e "Fosca". As
fantasias sobre temas de óperas são uma tendência comum aos
compositores e ao gosto da época. Levy já revela a admiração pela obra
do famoso amigo da família. O op 2 é escrito para dois pianos. Alex se
especializaria em escrever para 2 pianos e para piano a 4 mãos, pois
seu pensamento orquestral não podia ser concretizado com facilidade, e
a dupla com seu irmão lhe servia como laboratório sonoro.
O op 4 Trois Improvisations (Romance sans paroles, A la Hongrois e
Penseé Fugitive) e op 5 Valse Caprice são obras de delicioso
engenho melódico e harmônico onde Alex se revela músico de grande
maestria técnica e com a percepção atenta a efeitos de grande sutileza
e preparada para compreender e apreciar os passos audaciosos que há
seu tempo se davam no campo da composição musical.
Até 1882 compôs ainda op 6 Mazuras 1 e 2; op 7 Deuxieme Impromptu; op
8 Tarantelle (4 mãos), recuerdos; op 9 Scherzo-Valse (4 mãos).
Maioridade
Interessando-se em
aprofundar seus conhecimentos em alta composição, Alexandre aos 18
anos começa estudos em harmonia e contraponto com o maestro alemão,
professor Georg Von Madeweiss.
Em 5 de maio em concerto dado em São Paulo, com o violinistas Vicenzo
Cernichiaro, executa seu op 10 Trio em si bemol moldado no estilo dos
de Beethoven. Cernichiaro descreveria, mais tarde, Alexandre como
sendo "sempre disposto ao estudo, à literatura dos bons autores,....
prestando a todos seu belo talento de pianista, brilhante nos solos,
na música de câmara, no acompanhamento".
No dia 6 de maio freqüentadores da Casa Levy se reuniram e fundaram
uma agremiação com o objetivo de promover em São Paulo concertos
regulares, nos quais se fizesse ouvir música dos grandes mestres. Para
o cargo de diretor de concertos escolheram Alexandre Levy. Estava
formado o Club Gymastico Portuguez.
Em 1885 paralelamente às atividades do Club Haydn, Alexandre arranja
para 4 mãos "Lê Danse Sylphes"de Th. Kullak. Nesse ano ainda comporia
o op11 Quarteto de cordas em lá menor.
Em janeiro de 1887 se apresenta pela última vez nos concertos do Club
Haydn. Teria havido apenas mais um último concerto do Club Haydn a 26
de fevereiro no Teatro São José. Sem a coordenação de Levy o clube se
dissolveria rapidamente após ter realizado 31 concertos e dois grandes
concertos na ocasião em que D. Pedro II e sua família estiveram em São
Paulo.
Em maio de 1887, Alexandre embarca para o Velho Mundo. Após 3 meses em
Milão chega à Paris e Jules Massenet o teria confiado à orientação de
seu jovem aluno Vicenzo Ferroni. Quando retornou à Itália, passou a
ter aulas com Émile Durant .
João Gomes Jr., que tinha encontrado em Milão, torna-se seu
companheiro na cidade-luz. O nacionalismo consciente de Levy se
revela em conversa com João Gomes Jr. em que dizia que "cada nação
tinha a sua música característica e que o Brasil um dia haveria de
revelar a sua. Afirmava que para escrever música brasileira era
preciso estudar a música popular de todo o Brasil, sobretudo a do
Norte do país".
Durante a viagem pela Europa escreveu o Andante em mi bemol op 22 para
quinteto de cordas, o Allegro Apassionato op 14 e as Trois Morcecaux
op 13. A 19 de outubro fez-se ouvir nos salões do Barão d Arinos em
recepção que se fazia ao Imperador D. Pedro II e sua família, tocando
uma Polonaise de Frugatta e (novamente) a Polonaise op 22 de Chopin,
obtendo verdadeiro sucesso.
Ali conheceu o compositor Francisco Vale, que se tornou seu colega nos
últimos dias de Europa. Em novembro retorna ao Brasil. Tinha ficado
pouco mais de 6 meses no Velho Mundo.
De volta ao Brasil, trabalha na Sinfonia em mi menor op 21, que
termina em 1889. Fez reduções para 4 mãos do Andante e para dois
pianos do Final. Executou este final a dois pianos juntamente com o
grande professor Luigi Chiaffarelli, em concerto em São Paulo. Essa
sinfonia seria, depois de sua morte, premiada na Exposição Mundial de
Chicago.
Ainda em 1889 terminaria seu segundo Trio op 18, do qual só se conhece
o Finale. Escreve também a peça Reviere para quarteto de cordas
moldado no gênero Schumam-Reinecke. Em 14 de julho fez executar em
cena aberta o Hino a 14 de julho op 17, para orquestra e fanara,
intercalando temas do Chant du Depart e da Marsaillase. Compôs ainda
uma Cantata, escrita especialmente em 2 ou 3 dias para uma
sessão em homenagem ao Rei Guilherme, falecido na Alemanha.
Para canto e piano deixou inéditos dois romances com letras de Horácio
de Carvalho: "De mão postas" e "Aimons".
Os últimos anos
Em 1890, após participar das agitações causadas pelo movimento
republicano, Alexandre daria vazão ao seu sentimento nacionalista de
forma mais franca do que em suas variações.
No início do ano ele terminava seu poema Sinfônico "Comala". Em
janeiro terminara a redução e em 7 de junho terminaria a orquestração.
Nesses últimos anos comporia também uma suíte Schumaniana.
No dia 5 de abril o Diário Popular publicava o original Tango
Brasileiro, que o jornalista José Maria Lisboa havia encomendado a
Levy, para que pudesse oferecer aos seus leitores. Peça de inequívoca
atmosfera brasileira contém elementos presentes na música popular
urbana do final do séc. XIX.
Em 20 de julho no RJ, no 5 programa da série de concertos populares
dirigidos pelo Maestro Carlos Mesquita, estreou o "Samba" parte da
Suíte Brasiliense op 20. De julho a outubro teria trabalhado na
finalização da Suíte, repartiria em 4 partes: I-Prelúdio, II-Dança
Rústica, Coro e Canção triste, III - À Beira do Regato Idílio
Sentimental IV - Samba.
Por essa época deu concertos em São Paulo o violinista Maralttervegh e
quando da morte de Levy, mandou buscar suas obras e fê-las excatar em
Paris em 1892 e 1893.
Seu pai assim descreve a sua morte:
"No domingo, 17, próximo passado, como de costume, estávamos jantando,
reunida a família, na residência de nossa chácara. Alexandre que não
estava doente e que de nenhum incomodo se queixara até o fatal
momento, que estivera até onze horas do dia em reunião de amigos, na
cidade, que palestrara, de volta à chácara com seu humor habitual,
sentou-se à mesa, tomou um prato de sopa e logo em seguida um copo de
vinho, para continuar a jantar". De repente, diz "-Estou tonto ! ....
Fizou os olhos no prato, com as duas mãos encostadas na testa, foi
caindo nos nossos braços e não deu mais sinal de vida ! "
Ao que se saiba não sofria de nenhum mal, mas subitamente faleceu,
deixando uma produção espantosa para quem teve apenas 28 anos de vida.
Um anúncio de gênio, disse Mario de Andrade.
Apesar de sua formação erudita, suas obras altamente originais, eram
construídas em formas populares brasileiras, como o caso do Tango
Brasileiro, ou usam temas folclóricos como matéria prima, o que
o torna um pioneiro do nacionalismo musical brasileiro.
A Sinfonia em mi menor op 21 ( I-Largo, 4 Allegro Molto II- Andanto
Romântico, III - Scherzo, IV - Final, Allegro, Molto Vivo) foi enviada
por Carlos Gomes a Exposição Mundial de Chigaco, sendo premiada um ano
após a morte de Alexandre Levy.
Fonte: Patricia Levy (Parente de Alexandre Levy)