
Jacob Gershwine nasceu em 26 de setembro de 1898, no
East Side, bairro pobre de Nova York, Estados Unidos. Era o segundo
filho de Moritz Gershovitz e de Rosa Brushkin, ambos imigrantes judeus
russos, de São Petersburgo. Os dois tiveram seus nomes americanizados
- Morris e Rose -, o que aconteceu também com o sobrenome da família,
que mudou sucessivamente de Gershovitz para Gershvine, Gershvin, até
chegar em Gershwin. Jacob (que ganhou o sobrenome Gershwine por um
erro do escrivão) e seu irmão mais velho Israel também nunca foram
chamados pelos nomes de registro. A posteridade os chamaria de George
e Ira.
Ira era um garoto quieto, estudioso, fascinado por livros e por
cultura; George, ao contrário, preferia as ruas do East Side, onde
jogava beisebol e - principalmente - brigava com os outros moleques
das redondezas. Já mais velho e famoso, perguntaram-lhe se tocava
alguma coisa quando criança; "só moscas", foi a reposta.
Seu primeiro contato com música foi quando tinha seis anos de idade.
Ele estava perambulando pela cidade, quando passou em frente a uma
galeria onde soava uma pianola. A música era a Melodia em fá, de Anton
Rubinstein. George ficou fascinado com a experiência. Alguns anos mais
tarde, conheceu, na escola onde estudava, Maxie Rozenzweig, violinista
prodígio. Ficaram muito amigos. Maxie tocava seu violino para ele e
contava a vida de compositores como Beethoven e Schubert. Além disso,
o incentivou a brincar em seu piano, descobrindo suas primeiras notas.
Mas foi Ira que tornou mais séria essa atração de George pela música.
Ele cismou que queria estudar piano e pediu um para os pais. Apesarem
de não terem uma situação financeira estável, decidiram comprar um
piano de armário usado para Ira. No entanto, quem ficou excitado com o
instrumento foi George, na época com 12 anos, que logo foi
experimentar suas teclas. Certo dia, George, ao piano, tirou de ouvido
uma canção que fazia sucesso: Put your arms around me, honey, and hold
me tight. Os pais ficaram impressionados pela demonstração e decidiram
também pagar um professor para ele também.
Os primeiros professores - Ms. Green e Mr. Goldfarb - foram
desastrosos. Apenas com Charles Hambitzer é que George tem um contato
mais sólido com música. Hambitzer é tanto um pianista como um
professor excelente. E fica assombrado com a vontade de George em
aprender. Tanto que mencionou o pupilo em uma carta que escreveu para
irmã:
Tenho um novo aluno que será notável na música, se alguém o orientar.
O menino é um gênio, sem dúvida. É doido por música e não consegue
esperar a hora da aula. Para esse menino, o relógio não existe. Ele
quer derivar para essa bobagem moderna, o jazz, ou coisa que o valha,
mas não vou deixar que o faça já. Quero primeiro que ele adquira uma
báse sólida na música erudita.
A carta de Hambitzer já demonstra claramente as tendências de George.
De fato, ele já declarava sua preferência para a música popular, e não
adiantava o professor reclamar. Algum tempo depois, anuncia aos pais
que irá largar o curso de comércio que estava fazendo para ganhar a
vida como compositor. Compositor de música popular. Já escrevia
inclusive algumas canções - entre elas um tango! O ano era 1914 e
George tinha 16 anos. Hambitzer não chegaria a ver o sucesso que
Gershwin faria - morreu em 1918, com 40 anos, vítima de tuberculose.
Já decidido que iria ser um compositor popular, George teria que
começar a sua carreira. Na época, as portas do sucesso estavam na Rua
28, apelidada de Tin-Pan-Alley ("a rua da fervura", aproximadamente).
Lá estavam as grandes editoras de música, que lançavam as canções que
faziam sucesso. George, naturalmente, foi para a Tin-Pan-Alley pedir
emprego. Conseguiu na Editora Remick um emprego de pianista
demonstrador, que consistia em tocar para os fregueses as novidades da
casa.
Enquanto isso, ia compondo. Mostra suas canções aos fregueses e aos
editores da Remick, mas todas são recusadas, como "pouco comerciais".
Em outras editoras, o mesmo insucesso. Até que ele consegue publicar
sua primeira canção, que recebeu de um letrista o comprido nome de
When you want'em, you can't get'em, when you got'em, you don't want'em,
em 1916.
De canção em canção, Gershwin conseguiu ser chamado para compor toda a
música de um espetáculo da Broadway: La La Lucille, que conta o
"terrível" problema de um dentista que herdaria dois milhões de
dólares caso se separasse da mulher. O musical faz sucesso e é um
grande impulso na carreira de Gershwin.
Seu primeiro grande sucesso só veio em 1919: Swanee, que foi cantada
por Al Jonson no musical Sinbad. Milhares de cópias da partitura e de
gravações (das primeiras, em 78 rotações) foram vendidas em todos os
Estados Unidos, e George ganhou dinheiro como nunca com os direitos
autorais.
O sucesso chegou finalmente para George Gershwin. Seu novo e grande
apartamento começa a ser cada vez mais freqüentado pelas celebridades
do teatro e da música americanas. Enquanto isso, não pára de compor. A
década de 20 é um musical atrás do outro, todos grandes sucessos: Lady
be good, Oh Kay, Funny face, Rosalie, Treasure girl, Girl crazy, a
maioria com letras do irmão Ira.
Junto com o êxito popular, vem o reconhecimento dos outros artistas.
Todos começam a notar que Gershwin não é simplesmente um grande
fabricante de sucessos; é um músico extremamente preocupado com a
qualidade e com a profundidade de suas canções. Nada é gratuito em
Gershwin, que nunca apelou para o simples efeito, ou para os chavões.
O pianista Beryl Rubinstein foi um dos primeiros a chamar a atenção do
público quanto a esse aspecto:
Com o estilo e a seriedade que possui, Gershwin não pertence
exatamente à escola da música popular, mas se constitui numa das mais
proeminentes figuras do cenário musical do país.
Pensando de maneira semelhante, Eva Gauthier, famosa cantora lírica,
interpretou três canções de Gershwin em um recital que fez em Nova
York, ao lado de peças de Purcell, Bellini, Bartók e Schoenberg, entre
outros. Gershwin começa a ser respeitado como grande artista.
Paul Whiteman, dono de mais respeitada orquestra de jazz dos Estados
Unidos, que tinha pretensões de ampliar o nível da música popular
americana e fazê-la igualar-se à música sinfônica européia, viu em
Gershwin o parceiro ideal para seu projeto. Em janeiro de 1924,
convidou George para compor uma grande peça de jazz sinfônico. O
compositor, a princípio, recusou a proposta, se dizendo incapaz de tal
empreitada.
Qual foi a sua surpresa, ao ver estampado no New York Tribune tal
anúncio: em 12 de fevereiro, aniversário de Lincoln, Paul Whiteman
apresentará, com sua orquestra, entre outras novidades, uma peça de
jazz sinfônico de George Gershwin. Imediatamente George telefonou para
Whiteman querendo explicações; ao final da ligação, viu-se com uma
encomenda nas mãos. E tinha três semanas para cumpri-la.
Gershwin trabalha freneticamente na peça, que chama de American
rhapsody. Mas Ira, no mesmo dia em que George apresentava parte da
rapsódia para alguns amigos, havia visitado uma exposição de quadros
de Whistler, entre os quais Noturno em azul e verde. Daí a idéia de
Ira: Rhapsody in blue, que foi imediatamente aceita, e pela qual
conhecemos a obra até hoje. Gershwin entregou a partitura para dois
pianos para Ferde Grofé, que era o arranjador oficial de Paul Whiteman,
orquestrá-la.
A estréia foi um acontecimento, tendo na platéia personalidades como
Stravinsky, Rachmaninoff, Leopold Stokowski, John Philip Sousa. A peça
foi entusiasticamente recebida, tanto pelo público como pela imprensa.
Henry Osgood, do Musical Courier, jornal especializado, escreve: "a
Rhapsody in blue é uma contribuição superior à música do que a
Sagração da primavera de Stravinsky". O famoso crítico Henry T. Finck
declara coisa semelhante: "Gershwin é muito superior a Schoenberg,
Milhaud e aos demais moços futuristas".
O sucesso da Rhapsody in blue fez com que Walter Damrosch, regente da
Sociedade Sinfônica de Nova York, encomendasse um concerto para piano
e orquestra, nos moldes clássicos, para Gershwin. Desta vez, George se
preparou melhor - consta inclusive que comprou um compêndio de formas
musicais para saber melhor como funcionava um concerto.
E resolve orquestrar o concerto também. Para tanto, contrata uma
orquestra para sentir, na prática, o que estava instrumentando. E o
Concerto em fá (seria um reminiscência da Melodia em fá de Rubinstein
que o encantou quando garoto?) estava pronto. Estreou em 3 de dezembro
de 1925, no Carnegie Hall. A recepção foi menos calorosa que a da
Rhapsody, principalmente pela formatação "artificial" - com várias
imperfeições técnicas - de concerto que foi dada à música de jazz. Mas
o crítico Samuel Chotzinoff fez um comentário que se sobrepôs às
críticas e que se tornou célebre:
As deficiências apontadas nada significam em face a uma coisa que só
Gershwin, entre todos os que escrevem música hoje em dia, possui: na
realidade, só ele nos representa. Ele é o presente, com toda sua
audácia, impertinência, deleite febril. Gershwin é um artista
instintivo, capaz de manipular corretamente o material rude com o qual
começou, dom que nem mesmo um estudo constante de contraponto e fuga
poderiam dar a alguém que não tivesse nascido com ele.
Mas o "trauma" de não ter uma formação mais acadêmica acompanharia o
resto dos dias de Gershwin. Tanto que na viagem que fez à Europa em
1928, procurou alguns compositores famosos para que eles lhe dessem
aulas. Ficou célebre o diálogo que manteve com Stravinsky, que lhe
perguntou quanto Gershwin ganhava com sua música. A resposta: "Cerca
de cem mil dólares por ano". O russo, irônico, concluiu: "Neste caso,
talvez seja melhor eu estudar com você".
Dessa passagem pela Europa nasceu o poema sinfônico Um americano em
Paris, que ganhou de Samuel Chotzinoff a seguinte posição: "trata-se
da melhor peça de música moderna desde o Concerto em fá, do senhor
Gershwin". Nos anos seguintes, mais musicais, duas trilhas sonoras
para filmes (que começavam a ser sonorizados) e três peças "sérias": a
Segunda Rapsódia, a Abertura cubana e as Variações I got rhythm.
Até que Gershwin começou seu mais audacioso projeto: uma ópera
americana. O libreto escolhido foi Porgy, de Edwin duBose Hayward, que
trata do amor entre Porgy, um mendigo, e Bess, uma linda mulher, ambos
negros. A história se passa em uma comunidade negra de pescadores na
Carolina do Sul. Para se ambientar e adequar a partitura ao clima do
libreto, George viajou com Hayward para uma ilha bem parecida com a do
libreto. Lá conviveu com os negro gullahs da região, anotando os
spirituals, os shoutings e conhecendo seu folclore.
Em 1935 estréia Porgy and Bess, com um elenco de atores negros. Foi um
sucesso apenas moderado no início - complementado pelas inúmeras
polêmicas raciais que surgiriam em decorrência - mas se firmou no
repertório, tornando-se, sem dúvida, a maior ópera americana. Tanto
que o governo americano a utilizou como parte de sua "política de boa
vizinhança" organizando uma turnê histórica que visitou vários países
da América Latina.
O futuro de Gershwin parece ainda mais brilhante. Está cada vez mais
entusiasmado com sua carreira "clássica" - embora não deixa de compor
canções e musicais para a Broadway e Hollywood -, estudando e fazendo
planos. Mas George que, sempre tivera boa saúde, começava a sentir
estranhos sintomas do tumor que o mataria: lapsos de memória, dores de
cabeça, desmaios.
Após um desmaio em julho de 1937, Gershwin entra em coma. Levado às
pressas a um hospital, é detectado um tumor no cérebro. Já em estado
avançado. Ele é retirado, mas seu estágio já não permitia recuperação.
George Gershwin morreu na manhã de 11 de julho de 1937, ao lado do
irmão. Nem tinha completado 39 anos.
Fonte: Site Allegro