Mesmo hoje as obras para piano de Muzio Clementi são conhecidas de todos os estudantes sérios de piano. Para o estudante, as Sonatinas op. 36 são precursores essenciais para as tecnicamente mais difíceis sonatas de Haydn, Mozart e Beethoven, bem como para as suas próprias Sonatas. A influência de Clementi é mais nítida nas obras para teclado de Haydn e especialmente nas primeiras sonatas para piano de Beethoven, que era um fervoroso admirador de suas obras. Clementi é considerado o pai da moderna técnica de piano, mas talvez este título deva ser compartilhado com C.P.E. Bach, cujas composições foram muito estudadas por Clementi e muito o influenciaram.

Muzio Clementi nasceu em Roma, em 1752, o mais velho dos sete filhos de Nicolò Clementi, um ourives bem sucedido, e de Magdalena Kaiser. Nicolò percebeu os talentos de seu filho quando este ainda era muito pequeno. Começou seu aprendizado formal aos sete anos, e foi um aluno tão bom que aos 13 obteve o posto de organista de uma igreja. Em 1776, um rico nobre inglês chamado Sir Peter Beckford impressionou-se com o talento do jovem Clementi, e negociou com seu pai para levá-lo à Inglaterra, onde se encarregaria de sua educação musical. Em troca, era esperado que Clementi proporcionasse entretenimento musical na mansão do nobre, e Beckford contraiu um contrato com o pai de Clementi para pagar-lhe um estipêndio regular até que o menino chegasse aos 21 anos. Beckford levou o jovem músico para sua mansão no campo, em Steepleton Iwerne, ao norte de Dorset. E foi ali que Clementi passou os sete anos seguintes em estudo solitário e prática de cravo. As composições conhecidas destes anos são poucas: um oratório e possivelmente uma missa (perdidos) e seis sonatas para teclado. De qualquer forma, Clementi recebeu de Beckford neste período uma excelente instrução musical e acadêmica.

Em 1770, Clementi deu seu primeiro concerto público como pianista. Sua audiência ficou arrebatada por sua técnica, e este foi o começo de uma extraordinária carreira como solista de concerto. Aparentemente em 1774 Clementi libertou-se de seu compromisso com Beckford, e mudou-se para Londres. Suas primeiras aparições públicas foram como solista de cravo em concertos em benefício de um harpista e um cantor, na primavera de 1775. Durante os anos seguintes, suas participações como concertista na vida musical londrina foram raras, já que ele estava atuando como regente (ao mesmo tempo em que tocava o cravo), no Teatro do Rei, Haymarket. Entretanto, seu nome começou a aparecer mais nos programas de concerto de 1779 em diante, sem dúvida devido à popularidade de suas Sonatas op. 2, publicadas por Welcker na primavera de 1779.

Sua fama como pianista cresceu rápido, e foi considerado um dos maiores virtuoses da época. Sua celebridade cresceu tanto que por volta de 1780 ele sentiu-se capaz de tentar a sorte no continente. Parando primeiro em Paris, logo passou a Viena, onde ocorreu a famosa competição com Mozart (1781), depois de uma solicitação do imperador Josef II, para a diversão de seus convidados, o grão-duque Paul (mais tarde Czar) e a grã-duquesa da Rússia. Tanto Mozart como Clementi deixaram relatos do episódio. Eles foram solicitados a improvisar e tocar músicas de sua própria autoria. A pedido da grã-duquesa, eles tocaram à primeira vista uma sonata de Paisiello (“muito mal escrita pela sua própria mão”, disse Mozart). Não sabemos o que Mozart tocou de sua própria autoria, mas Clementi mais tarde assinalou que duas de suas próprias obras foram executadas então, a Toccata op. 11 e a Sonata em si bemol maior, op. 24, n° 2. Em janeiro de 1782, Mozart escreveu a seu pai: “Clementi toca bem, principalmente com a mão direita. Seu forte são as passagens em terças. Fora isso, seu gosto ou sentimento não valem um centavo – em suma, ele é um simples mecânico”. Alguns meses mais tarde Mozart escreveu com ainda mais acidez: “Clementi é um charlatão – como todos os italianos”. Estas opiniões, divulgadas ainda em vida de Clementi, se tornaram parte permanente do folclore sobre ele. As impressões de Clementi sobre a performance de Mozart foram cheias de admiração pelo colega. De acordo com Berger, ele lembrou: “Até então eu não havia ouvido ninguém tocar com tamanho espírito e graça. Fiquei sobremaneira impressionado com um Adagio e com as variações improvisadas sobre um tema dado na hora pelo imperador, que ambos tivemos de elaborar”. A habilidade de ambos os compositores era tanta que o imperador teve de declarar a competição empatada. O juízo de Mozart, muito mesquinho e talvez invejoso, permanece entretanto como um testemunho das substanciais qualidades de Clementi como virtuose e compositor, e é inegável que o tema principal da Sonata em si bemol maior seduziu a imaginação de Mozart, pois dez anos depois ele o utilizou na abertura de sua ópera A Flauta Mágica. Este fato amargurou tanto Clementi que ele conseguiu que todas as edições desta obra incluíssem uma nota editorial dizendo que a sua Sonata havia sido escrita dez anos antes de Mozart escrever uma só nota da ópera.

 

Em 1784, Clementi voltou ao continente e envolveu-se com uma moça de dezoito anos que ele havia conhecido em sua viagem anterior, a filha de um próspero negociante de Lyon. O pai furioso perseguiu o casal, e com a ajuda das autoridades recuperou sua filha. Arrasado, Clementi retirou-se para Berna, onde consolou-se com a matemática. Uma carta para seu pai mostra que ele ainda estava lá em agosto de 1784. Ele pode ter feito uma visita à família em Roma, mas em maio de 1875 estava de volta a Londres, onde ficaria por muitos anos. Durante o período das viagens e das turbulências, Clementi produziu 26 novas sonatas (opp. 5 a 13), e várias outras composições para teclado.  Algumas de suas peças mais marcantes são deste período.

A rejeição de Clementi pelo mercador francês tornou-lhe claro que a profissão de virtuoso itinerante não era muito respeitável. E ele resolveu estabelecer objetivos mais altos. As Sonatas op. 13, que ele compôs nesta época, são decididamente menos incandescentes, mais nobremente melódicas e mais internamente coerentes do que as anteriores. Foi quando começou a compor também sinfonias, que estavam se tornando rapidamente o gênero musical mais prestigioso. Em 1786 foram executadas em Londres quatro novas sinfonias de Clementi. Destas, sobreviveram duas, as breves Sinfonias do op. 18, publicadas em 1787. Elas permanecem como as únicas obras orquestrais que Clementi jamais permitiu que fossem publicadas.

Em acréscimo à elevação de suas ambições musicais, Clementi agora desejava crescer entrando no mundo dos negócios. Ele estava começando a se tornar o professor de piano mais procurado e caro de Londres, e com sua fortuna aumentando, investiu pesadamente na edição de música e na construção de pianos, duas atividades que cada vez mais absorveram seu tempo e atenção. O interesse de Clementi pela música orquestral também foi influenciado pelas duas visitas de Haydn a Londres. Durante a década de 1780 as Sinfonias de Clementi eram freqüentemente executadas, mas a chegada de Haydn a Londres em 1791 subitamente as deslocou na preferência do público, uma competição na qual Clementi não poderia sair vencedor. Quando Haydn retornou a Viena, em 1793, a música de Clementi novamente começou a ser procurada. Sua sorte balançou mais uma vez quando Haydn reapareceu em 1794, mas sua popularidade novamente voltou a subir depois da partida final do grande mestre germânico.

O caráter de Clementi não conhecia a inveja daqueles cuja fama era maior que a sua, e ele manteve relações cordiais com Haydn, que visitou a casa de campo de Clementi em Evesham, Worcestershire. Clementi presenteou Haydn com uma peça feita de casca de côco trabalhada com prata como souvenir de  sua viagem à Inglaterra. Entretanto, de certa maneira Haydn era uma irritação constante para Clementi. Mas também deve certamente ter agido como inspiração e desafio, porque Clementi continuou a escrever sinfonias, sem dúvida inspiradas nas de Haydn. Durante os primeiros anos do século XIX – e especialmente depois de conhecer Beethoven e sua música – Clementi escreveu suas melhores composições sinfônicas que conhecemos. De 1816 até 1824, uma longa série de críticas as mais favoráveis registra a execução de suas obras em Londres, Paris, Munique e Leipzig, mesmo que estas sinfonias não tenham sido publicadas e fossem ciosamente guardadas pelo compositor. É irônico o fato de estes trabalhos terem ficado desconhecidos e não terem sido executados durante um tão largo período de tempo, e mesmo que seu número e datas de composição ainda sejam obscuros, porque Clementi depositava grandes esperanças de fama póstuma justamente nestas sinfonias.

Uma das razões prováveis para que Clementi não as tenha publicado em vida é a de que ele provavelmente continuou revisando-as e meditando sobre elas. Em seus primeiros anos, a impaciência juvenil o tinha levado a publicar tudo o que compunha imediatamente. Mas um outro efeito da reorientação provocada pelo seu envolvimento afetivo frustrado foi tornar Clementi mais cuidadoso sobre a qualidade do trabalho colocado ao público. Clementi oscilou de um extremo ao outro, e tornou-se um revisor compulsivo das composições a que dava importância especial. Ele carregava as partituras consigo em suas demoradas viagens promocionais, e estavam com ele quando morreu.

Clementi também foi imensamente procurado como professor de piano. Seus alunos incluem membros das famílias mais proeminentes de Londres, que eram ávidas de pagar o preço de um guinéu por aula. Ele também ganhou a fama de professor de alunos “profissionais”. Entre estes estavam J.B. Cramer, o organista Arthur T. Corfe, o violinista e pianista Benjamin Blake, Theresa Jansen. Benoit-Auguste Bertini e John Field. A pequena fortuna que ele juntou durante os anos 1790 foi investida na edição musical e na fabricação de instrumentos. Tendo sofrido sérias perdas na falência da firma Longman & Broderip em 1798, conseguiu tirar vantagem da situação fundando uma nova firma, Longman, Clementi & Co. Com a troca de nome para possibilitar a entrada e saída de diversos sócios, a companhia continuou a atuar até a aposentadoria de Clementi em 1830.

Mesmo que seus vigorosos empreendimentos comerciais deixassem menos tempo para a composição, ele produziu um considerável volume de música durante sua longa permanência em Londres. Entre as novas composições estão cerca de 56 Sonatas e Sonatinas para teclado, muitas arranjadas para quatro mãos ou dois pianos, um grupo de variações, caprichos e outras composições curtas para teclado, duas sinfonias e a influente Introdução à Arte de Tocar Pianoforte, de 1801. Mesmo com o fato de muitas destas obras terem-se perdido, o destino de todos estes manuscritos é uma história obscura e confusa. Há antigos rumores de que o próprio Clementi os teria destruído. Mas em 1921 o musicólogo Georges de Saint-Foix anunciou que pela combinação de manuscritos de duas grandes coleções, uma no Museu Britânico e outra na Biblioteca do Congresso americano, ele tinha reconstruído quatro Sinfonias, uma Abertura e um Minueto. Um empregado do neto do compositor, que veio a possuir os manuscritos, evidentemente havia provocado esta confusão. Mas muita música permaneceu intacta, ainda que dividida entre as duas coleções.

Em 1935 o compositor e pianista Alfredo Casella reconstruiu com sucesso duas Sinfonias e as apresentou na Itália, obtendo excelente receptividade. Execuções também foram feitas nos Estados Unidos pela Orquestra Sinfônica de Boston, e em 1938 foi publicada a edição de Casella das duas Sinfonias. Em 1969 o pianista e musicólogo Pietro Spada começou a trabalhar com os manuscritos de Londres e Washington. Ele descobriu diversas conexões entre vários fragmentos que foram ignoradas por Casella. Em 1978 Spada já havia publicado quatro grandes Sinfonias que aparentemente datam de 1810-1824, duas Aberturas que eram talvez os primeiros movimentos de sinfonias, e um Minuetto Pastorale. Edições modernas das duas Sinfonias op. 18 e de um Concerto para Piano que Clementi posteriormente transformou em uma Sonata já haviam aparecido impressas alguns anos antes, de modo que a produção orquestral de Clementi agora está inteiramente publicada.

As obras capitais dentre estes trabalhos são as quatro Sinfonias publicadas por Spada. São obra imediatamente atraentes, generosas e afetivas, ainda que sem uma grama de sentimentalismo. Cada uma dura cerca de meia hora – o dobro das Sinfonias op. 18 – e cada uma é orquestrada para uma orquestra suntuosa que inclui três trombones. Como seria de esperar, há muito da influência de Haydn nestes trabalhos. De fato muitos dos movimentos rápidos se assemelham aos de Haydn a uma primeira audição, mas a intensidade da verve foi difusa, a perfeição formal relaxada, e a própria forma aberta para permitir tempo de contemplação e desfrute.

Muitas vezes Clementi introduz um acorde estranho à clave, o que em Haydn sinalizaria a abertura de uma nova área harmônica, mas em Clementi são usados simplesmente como efeito local antes que como um marco estrutural na progressão harmônica. O método de Clementi de produzir uma ampliação e relaxamento na forma clássica era arranjar súbitos momentos de calma ou mesmo estase. Estes misteriosos “pontos de repouso” que primeiramente apareceram no op. 18, surgem por toda parte nos quatro trabalhos posteriores. Já são muito diferentes do estilo de Haydn, que proporcionava momentos de surpresa e deleite sem perder o sentido da forma subjacente. Naqueles momentos, Clementi parece mesmo desejar interromper a continuidade por algum tempo. Nesta intenção, junto com seus procedimentos harmônicos e o caráter de algumas de suas melodias, parece natural compará-las aos trabalhos de Schubert , Carl Maria von Weber, Johann Nepomuk Hummel e Louis Spohr.

Nestes trabalhos de começo do século XIX, as formas clássicas de Haydn, Mozart e Beethoven permanecem mais ou menos inalteradas externamente, mas são suavizadas e afrouxadas através de uma intensificada concentração na cor local e no detalhe ornamental, de uma tendência para a opulência sonora e harmônica, e de um ritmo agradável. Estes foram os elementos da música de Clementi durante muito tempo, mas ele difere de outros compositores no importante aspecto de pertencer a uma geração musical anterior, tendo-os composto pelo menos uma década antes dos outros músicos mencionados.

A linguagem contrapontística do Alto Barroco ainda era para Clementi um meio de expressão vivo – não como para Mendelssohn, para quem era uma língua antiga digna de ser preservada e aprendida. Assim encontramos nas últimas quatro Sinfonias de Clementi seções canônicas e fugais vigorosas e elaboradas, ao lado de passagens frouxas e ornamentais que lembram Weber e o primeiro Schubert. Durante sua vida Clementi foi muito elogiado pela crítica inglesa por sua erudição, o que significava sua técnica contrapontística.

Um crítico um pouco posterior como Schumann, não só um alemão mas também um romântico, poderia já expressar sua preocupação pela aparente frieza da escrita contrapontística de Clementi. Foi a posição histórica única de Clementi – ao lado de seu enorme talento – que o capacitou a temperar e qualificar as formas clássicas tanto com os rigores contrapontísticos da era barroca que desaparecia quanto com as inovações harmônicas da era romântica. Não há ninguém como ele, e nenhuma obra se assemelha às quatro extraordinárias Sinfonias.

Em 1807, em Viena, Clementi empreendeu elaboradas negociações com Beethoven que fizeram de Clementi o seu principal editor inglês, e em junho de 1824 Clementi assistiu à estréia de Lizst em Londres, o início da grande carreira do mestre húngaro. Durante sua vida Clementi foi tão famoso quanto Mozart, sua reputação só sendo ultrapassada pelas de Haydn e Beethoven, que muito nele influíram e se deixaram influir igualmente. Além disso, Clementi foi não só um dos maiores virtuoses  e professores de seu instrumento, mas diretor de um bem sucedida empresa de edição musical e construção de pianos.

Em 1810 Clementi cessou de dar concertos para devotar-se completamente à composição e à construção de pianos. Passou seus anos derradeiros e tranqüilos em Evesham, onde morreu em 1832. Foi enterrado na Abadia de Westminster. No final de sua vida, Clementi já havia casado e enviuvado três vezes. Na época de sua morte havia juntado grande fortuna, devido ao fato de que era muito frugal. Ele guardava cada centavo, e muitas pessoas o viam como um avarento.

Clementi compôs mais de uma centena de Sonatas para piano, que ainda são executadas hoje, e muitas são peças favoritas nos manuais avançados de técnica pianística. Publicou também um número de obras pedagógicas, das quais sua Introdução à Arte de Tocar Pianoforte e os três volumes de seu Gradus ad Parnassum são os mais conhecidos. Contudo, as suas Sonatas permanecem como sua grande contribuição, e são muitas vezes mais complexas e difíceis que as de Mozart.

Além de sua música para piano, Clementi compôs em outros gêneros, incluindo as quatro Sinfonias, que gradualmente estão recebendo maior crédito dos musicólogos como grandes obras. Também compôs diversas obras vocais e peças de câmara, mas estas quase desapareceram da cena musical desde sua morte. Em geral, porém, sua música está ganhando maior popularidade através das gravações. A alegre, leve e espirituosa excitação de suas obras pianísticas está cada dia cativando mais ouvintes.

Fonte: http://classicalmus.hispeed.com/clementi/