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Música
COMPOSITORES FAMOSOS
- Muzio Clementi
- Roma, 1752- Evesham, 1832
-

Mesmo
hoje as obras para piano de Muzio Clementi são conhecidas de todos
os estudantes sérios de piano. Para o estudante, as Sonatinas op. 36 são precursores essenciais para as tecnicamente
mais difíceis sonatas de Haydn, Mozart e Beethoven, bem como para
as suas próprias Sonatas.
A influência de Clementi é mais nítida nas obras para teclado de
Haydn e especialmente nas primeiras sonatas para piano de Beethoven,
que era um fervoroso admirador de suas obras. Clementi é
considerado o pai da moderna técnica de piano, mas talvez este título
deva ser compartilhado com C.P.E. Bach, cujas composições foram
muito estudadas por Clementi e muito o influenciaram.
Muzio
Clementi nasceu em Roma, em 1752, o mais velho dos sete filhos de
Nicolò Clementi, um ourives bem sucedido, e de Magdalena Kaiser.
Nicolò percebeu os talentos de seu filho quando este ainda era
muito pequeno. Começou seu aprendizado formal aos sete anos, e foi
um aluno tão bom que aos 13 obteve o posto de organista de uma
igreja. Em 1776, um rico nobre inglês chamado Sir Peter Beckford
impressionou-se com o talento do jovem Clementi, e negociou com seu
pai para levá-lo à Inglaterra, onde se encarregaria de sua educação
musical. Em troca, era esperado que Clementi proporcionasse
entretenimento musical na mansão do nobre, e Beckford contraiu um
contrato com o pai de Clementi para pagar-lhe um estipêndio regular
até que o menino chegasse aos 21 anos. Beckford levou o jovem músico
para sua mansão no campo, em Steepleton Iwerne, ao norte de Dorset.
E foi ali que Clementi passou os sete anos seguintes em estudo solitário
e prática de cravo. As composições conhecidas destes anos são
poucas: um oratório e possivelmente uma missa (perdidos) e seis
sonatas para teclado. De qualquer forma, Clementi recebeu de
Beckford neste período uma excelente instrução musical e acadêmica.
Em
1770, Clementi deu seu primeiro concerto público como pianista. Sua
audiência ficou arrebatada por sua técnica, e este foi o começo
de uma extraordinária carreira como solista de concerto.
Aparentemente em 1774 Clementi libertou-se de seu compromisso com
Beckford, e mudou-se para Londres. Suas primeiras aparições públicas
foram como solista de cravo em concertos em benefício de um
harpista e um cantor, na primavera de 1775. Durante os anos
seguintes, suas participações como concertista na vida musical
londrina foram raras, já que ele estava atuando como regente (ao
mesmo tempo em que tocava o cravo), no Teatro do Rei, Haymarket.
Entretanto, seu nome começou a aparecer mais nos programas de
concerto de 1779 em diante, sem dúvida devido à popularidade de
suas Sonatas op. 2,
publicadas por Welcker na primavera de 1779.
Sua
fama como pianista cresceu rápido, e foi considerado um dos maiores
virtuoses da época. Sua
celebridade cresceu tanto que por volta de 1780 ele sentiu-se capaz
de tentar a sorte no continente. Parando primeiro em Paris, logo
passou a Viena, onde ocorreu a famosa competição com Mozart
(1781), depois de uma solicitação do imperador Josef II, para a
diversão de seus convidados, o grão-duque Paul (mais tarde Czar) e
a grã-duquesa da Rússia. Tanto Mozart como Clementi deixaram
relatos do episódio. Eles foram solicitados a improvisar e tocar músicas
de sua própria autoria. A pedido da grã-duquesa, eles tocaram à
primeira vista uma sonata de Paisiello (“muito mal escrita pela
sua própria mão”, disse Mozart). Não sabemos o que Mozart tocou
de sua própria autoria, mas Clementi mais tarde assinalou que duas
de suas próprias obras foram executadas então, a Toccata
op. 11 e a Sonata em si bemol maior, op. 24, n° 2. Em janeiro de 1782, Mozart
escreveu a seu pai: “Clementi toca bem, principalmente com a mão
direita. Seu forte são as passagens em terças. Fora isso, seu
gosto ou sentimento não valem um centavo – em suma, ele é um
simples mecânico”. Alguns meses mais tarde Mozart escreveu com
ainda mais acidez: “Clementi é um charlatão – como todos os
italianos”. Estas opiniões, divulgadas ainda em vida de Clementi,
se tornaram parte permanente do folclore sobre ele. As impressões
de Clementi sobre a performance de Mozart foram cheias de admiração
pelo colega. De acordo com Berger, ele lembrou: “Até então eu não
havia ouvido ninguém tocar com tamanho espírito e graça. Fiquei
sobremaneira impressionado com um Adagio e com as variações
improvisadas sobre um tema dado na hora pelo imperador, que ambos
tivemos de elaborar”. A habilidade de ambos os compositores era
tanta que o imperador teve de declarar a competição empatada. O juízo
de Mozart, muito mesquinho e talvez invejoso, permanece entretanto
como um testemunho das substanciais qualidades de Clementi como virtuose
e compositor, e é inegável que o tema principal da Sonata em si bemol maior seduziu a imaginação de Mozart, pois dez
anos depois ele o utilizou na abertura de sua ópera A Flauta Mágica.
Este fato amargurou tanto Clementi que ele conseguiu que todas as
edições desta obra incluíssem uma nota editorial dizendo que a
sua Sonata havia sido escrita dez anos antes de Mozart escrever uma só
nota da ópera.
Em
1784, Clementi voltou ao continente e envolveu-se com uma moça de
dezoito anos que ele havia conhecido em sua viagem anterior, a filha
de um próspero negociante de Lyon. O pai furioso perseguiu o casal,
e com a ajuda das autoridades recuperou sua filha. Arrasado,
Clementi retirou-se para Berna, onde consolou-se com a matemática.
Uma carta para seu pai mostra que ele ainda estava lá em agosto de
1784. Ele pode ter feito uma visita à família em Roma, mas em maio
de 1875 estava de volta a Londres, onde ficaria por muitos anos.
Durante o período das viagens e das turbulências, Clementi
produziu 26 novas sonatas (opp. 5 a 13), e várias outras composições
para teclado.
Algumas de suas peças mais marcantes são deste período.
A
rejeição de Clementi pelo mercador francês tornou-lhe claro que a
profissão de virtuoso itinerante não era muito respeitável. E ele
resolveu estabelecer objetivos mais altos. As Sonatas
op. 13, que ele compôs nesta época, são decididamente menos
incandescentes, mais nobremente melódicas e mais internamente
coerentes do que as anteriores. Foi quando começou a compor também
sinfonias, que estavam se tornando rapidamente o gênero musical
mais prestigioso. Em 1786 foram executadas em Londres quatro novas
sinfonias de Clementi. Destas, sobreviveram duas, as breves Sinfonias
do op. 18, publicadas em 1787. Elas permanecem como as únicas obras
orquestrais que Clementi jamais permitiu que fossem publicadas.
Em
acréscimo à elevação de suas ambições musicais, Clementi agora
desejava crescer entrando no mundo dos negócios. Ele estava começando
a se tornar o professor de piano mais procurado e caro de Londres, e
com sua fortuna aumentando, investiu pesadamente na edição de música
e na construção de pianos, duas atividades que cada vez mais
absorveram seu tempo e atenção. O interesse de Clementi pela música
orquestral também foi influenciado pelas duas visitas de Haydn a
Londres. Durante a década de 1780 as Sinfonias de Clementi eram freqüentemente executadas, mas a chegada
de Haydn a Londres em 1791 subitamente as deslocou na preferência
do público, uma competição na qual Clementi não poderia sair
vencedor. Quando Haydn retornou a Viena, em 1793, a música de
Clementi novamente começou a ser procurada. Sua sorte balançou
mais uma vez quando Haydn reapareceu em 1794, mas sua popularidade
novamente voltou a subir depois da partida final do grande mestre
germânico.
O
caráter de Clementi não conhecia a inveja daqueles cuja fama era
maior que a sua, e ele manteve relações cordiais com Haydn, que
visitou a casa de campo de Clementi em Evesham, Worcestershire.
Clementi presenteou Haydn com uma peça feita de casca de côco
trabalhada com prata como souvenir de
sua viagem à Inglaterra. Entretanto, de certa maneira Haydn
era uma irritação constante para Clementi. Mas também deve
certamente ter agido como inspiração e desafio, porque Clementi
continuou a escrever sinfonias, sem dúvida inspiradas nas de Haydn.
Durante os primeiros anos do século XIX – e especialmente depois
de conhecer Beethoven e sua música – Clementi escreveu suas
melhores composições sinfônicas que conhecemos. De 1816 até
1824, uma longa série de críticas as mais favoráveis registra a
execução de suas obras em Londres, Paris, Munique e Leipzig, mesmo
que estas sinfonias não tenham sido publicadas e fossem ciosamente
guardadas pelo compositor. É irônico o fato de estes trabalhos
terem ficado desconhecidos e não terem sido executados durante um tão
largo período de tempo, e mesmo que seu número e datas de composição
ainda sejam obscuros, porque Clementi depositava grandes esperanças
de fama póstuma justamente nestas sinfonias.
Uma
das razões prováveis para que Clementi não as tenha publicado em
vida é a de que ele provavelmente continuou revisando-as e
meditando sobre elas. Em seus primeiros anos, a impaciência juvenil
o tinha levado a publicar tudo o que compunha imediatamente. Mas um
outro efeito da reorientação provocada pelo seu envolvimento
afetivo frustrado foi tornar Clementi mais cuidadoso sobre a
qualidade do trabalho colocado ao público. Clementi oscilou de um
extremo ao outro, e tornou-se um revisor compulsivo das composições
a que dava importância especial. Ele carregava as partituras
consigo em suas demoradas viagens promocionais, e estavam com ele
quando morreu.
Clementi
também foi imensamente procurado como professor de piano. Seus
alunos incluem membros das famílias mais proeminentes de Londres,
que eram ávidas de pagar o preço de um guinéu por aula. Ele também
ganhou a fama de professor de alunos “profissionais”. Entre
estes estavam J.B. Cramer, o organista Arthur T. Corfe, o violinista
e pianista Benjamin Blake, Theresa Jansen. Benoit-Auguste Bertini e
John Field. A pequena fortuna que ele juntou durante os anos 1790
foi investida na edição musical e na fabricação de instrumentos.
Tendo sofrido sérias perdas na falência da firma Longman &
Broderip em 1798, conseguiu tirar vantagem da situação fundando
uma nova firma, Longman, Clementi & Co. Com a troca de nome para
possibilitar a entrada e saída de diversos sócios, a companhia
continuou a atuar até a aposentadoria de Clementi em 1830.
Mesmo
que seus vigorosos empreendimentos comerciais deixassem menos tempo
para a composição, ele produziu um considerável volume de música
durante sua longa permanência em Londres. Entre as novas composições
estão cerca de 56 Sonatas
e Sonatinas para teclado, muitas arranjadas para quatro mãos ou dois
pianos, um grupo de variações, caprichos e outras composições
curtas para teclado, duas sinfonias e a influente Introdução
à Arte de Tocar Pianoforte, de 1801. Mesmo com o fato de muitas
destas obras terem-se perdido, o destino de todos estes manuscritos
é uma história obscura e confusa. Há antigos rumores de que o próprio
Clementi os teria destruído. Mas em 1921 o musicólogo Georges de
Saint-Foix anunciou que pela combinação de manuscritos de duas
grandes coleções, uma no Museu Britânico e outra na Biblioteca do
Congresso americano, ele tinha reconstruído quatro Sinfonias,
uma Abertura e um Minueto. Um
empregado do neto do compositor, que veio a possuir os manuscritos,
evidentemente havia provocado esta confusão. Mas muita música
permaneceu intacta, ainda que dividida entre as duas coleções.
Em
1935 o compositor e pianista Alfredo Casella reconstruiu com sucesso
duas Sinfonias e as
apresentou na Itália, obtendo excelente receptividade. Execuções
também foram feitas nos Estados Unidos pela Orquestra Sinfônica de
Boston, e em 1938 foi publicada a edição de Casella das duas Sinfonias.
Em 1969 o pianista e musicólogo Pietro Spada começou a trabalhar
com os manuscritos de Londres e Washington. Ele descobriu diversas
conexões entre vários fragmentos que foram ignoradas por Casella.
Em 1978 Spada já havia publicado quatro grandes Sinfonias
que aparentemente datam de 1810-1824, duas Aberturas
que eram talvez os primeiros movimentos de sinfonias, e um Minuetto Pastorale. Edições modernas das duas Sinfonias op. 18 e de um Concerto
para Piano que Clementi posteriormente transformou em uma Sonata
já haviam aparecido impressas alguns anos antes, de modo que a
produção orquestral de Clementi agora está inteiramente
publicada.
As
obras capitais dentre estes trabalhos são as quatro Sinfonias
publicadas por Spada. São obra imediatamente atraentes, generosas e
afetivas, ainda que sem uma grama de sentimentalismo. Cada uma dura
cerca de meia hora – o dobro das Sinfonias
op. 18 – e cada uma é orquestrada para uma orquestra suntuosa
que inclui três trombones. Como seria de esperar, há muito da
influência de Haydn nestes trabalhos. De fato muitos dos movimentos
rápidos se assemelham aos de Haydn a uma primeira audição, mas a
intensidade da verve foi difusa, a perfeição formal relaxada, e a
própria forma aberta para permitir tempo de contemplação e
desfrute.
Muitas
vezes Clementi introduz um acorde estranho à clave, o que em Haydn
sinalizaria a abertura de uma nova área harmônica, mas em Clementi
são usados simplesmente como efeito local antes que como um marco
estrutural na progressão harmônica. O método de Clementi de
produzir uma ampliação e relaxamento na forma clássica era
arranjar súbitos momentos de calma ou mesmo estase. Estes
misteriosos “pontos de repouso” que primeiramente apareceram no op.
18, surgem por toda parte nos quatro trabalhos posteriores. Já
são muito diferentes do estilo de Haydn, que proporcionava momentos
de surpresa e deleite sem perder o sentido da forma subjacente.
Naqueles momentos, Clementi parece mesmo desejar interromper a
continuidade por algum tempo. Nesta intenção, junto com seus
procedimentos harmônicos e o caráter de algumas de suas melodias,
parece natural compará-las aos trabalhos de Schubert , Carl Maria
von Weber, Johann Nepomuk Hummel e Louis Spohr.
Nestes
trabalhos de começo do século XIX, as formas clássicas de Haydn,
Mozart e Beethoven permanecem mais ou menos inalteradas
externamente, mas são suavizadas e afrouxadas através de uma
intensificada concentração na cor local e no detalhe ornamental,
de uma tendência para a opulência sonora e harmônica, e de um
ritmo agradável. Estes foram os elementos da música de Clementi
durante muito tempo, mas ele difere de outros compositores no
importante aspecto de pertencer a uma geração musical anterior,
tendo-os composto pelo menos uma década antes dos outros músicos
mencionados.
A
linguagem contrapontística do Alto Barroco ainda era para Clementi
um meio de expressão vivo – não como para Mendelssohn, para quem
era uma língua antiga digna de ser preservada e aprendida. Assim
encontramos nas últimas quatro Sinfonias de Clementi seções canônicas
e fugais vigorosas e elaboradas, ao lado de passagens frouxas e
ornamentais que lembram Weber e o primeiro Schubert. Durante sua
vida Clementi foi muito elogiado pela crítica inglesa por sua erudição,
o que significava sua técnica contrapontística.
Um
crítico um pouco posterior como Schumann, não só um alemão mas
também um romântico, poderia já expressar sua preocupação pela
aparente frieza da escrita contrapontística de Clementi. Foi a posição
histórica única de Clementi – ao lado de seu enorme talento –
que o capacitou a temperar e qualificar as formas clássicas tanto
com os rigores contrapontísticos da era barroca que desaparecia
quanto com as inovações harmônicas da era romântica. Não há
ninguém como ele, e nenhuma obra se assemelha às quatro extraordinárias
Sinfonias.
Em
1807, em Viena, Clementi empreendeu elaboradas negociações com
Beethoven que fizeram de Clementi o seu principal editor inglês, e
em junho de 1824 Clementi assistiu à estréia de Lizst em Londres,
o início da grande carreira do mestre húngaro. Durante sua vida
Clementi foi tão famoso quanto Mozart, sua reputação só sendo
ultrapassada pelas de Haydn e Beethoven, que muito nele influíram e
se deixaram influir igualmente. Além disso, Clementi foi não só
um dos maiores virtuoses
e professores de seu instrumento, mas diretor de um bem
sucedida empresa de edição musical e construção de pianos.
Em
1810 Clementi cessou de dar concertos para devotar-se completamente
à composição e à construção de pianos. Passou seus anos
derradeiros e tranqüilos em Evesham, onde morreu em 1832. Foi
enterrado na Abadia de Westminster. No final de sua vida, Clementi já
havia casado e enviuvado três vezes. Na época de sua morte havia
juntado grande fortuna, devido ao fato de que era muito frugal. Ele
guardava cada centavo, e muitas pessoas o viam como um avarento.
Clementi
compôs mais de uma centena de Sonatas para piano, que ainda são executadas hoje, e muitas são peças
favoritas nos manuais avançados de técnica pianística. Publicou
também um número de obras pedagógicas, das quais sua Introdução
à Arte de Tocar Pianoforte e os três volumes de seu Gradus ad Parnassum são os mais conhecidos. Contudo, as suas Sonatas
permanecem como sua grande contribuição, e são muitas vezes mais
complexas e difíceis que as de Mozart.
Além de sua música para piano, Clementi compôs em outros gêneros, incluindo as quatro Sinfonias, que gradualmente estão recebendo maior crédito dos musicólogos como grandes obras. Também compôs diversas obras vocais e peças de câmara, mas estas quase desapareceram da cena musical desde sua morte. Em geral, porém, sua música está ganhando maior popularidade através das gravações. A alegre, leve e espirituosa excitação de suas obras pianísticas está cada dia cativando mais ouvintes.
Fonte: http://classicalmus.hispeed.com/clementi/
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